Quando você chega à emergência de um hospital, uma das primeiras coisas que eles pedem é que você dê uma nota para a sua dor numa escala de um a dez. Me lembro de uma vez, logo no inicio, em que eu não estava conseguindo respirar e parecia que meu peito estava pegando fogo, as chamas lambendo meu tórax por dentro, tentando encontrar um jeito de sair e queimar o lado de fora, e meus pais me levaram para a emergência. Uma enfermeira perguntou sobre a dor e eu não conseguia nem falar, então mostrei nove dedos. Depois, quando já tinham me dado alguma coisa, a enfermeira voltou e ficou meio que acariciando minha mão enquanto media minha pressão arterial, então disse: Sabe como sei que você é guerreira? Você chamou um dez de nove.
A culpa é das estrelas.

Ser mulher significa ser membro de uma classe, de uma casta, ‘portar a Estrela de Davi’. Não é uma sensação, nem um sentimento, nem uma performance, nem uma decisão. É apartheid. É ser parte daquelas pessoas que, como dito, foram designadas como estupráveis, e são mantidas nessa classe por meio disso, de estupro e pela força, pelo terror, para que não se sublevem.

Identificar-se com uma classe seria o mesmo que dizer que proletariado e pobreza é uma performance, uma identificação, ou algo a ser celebrado. Não. Feminismo está aqui porque as classes sexuais devem ser destruídas.

Gênero é a divisão criada para determinar quais membros são de uma casta ou outra, a privilegiada e humana, e a desumanizada e violentada, apropriada. Gênero não é identidade.

Não existe um ‘ser mulher’ imanente e transcendental. Patriarcado é regime de escravidão, e determina que escravizadas e subordinadas cheguem a crer que nasceram e morrerão no ‘ser escravo’.

Se alguém se identifica com o ‘ser mulher’ como algo inerente, está se identificando com o ‘ser escrava’, a feminilidade. E isso foi imposto pelo opressor. Nós nos organizamos como mulheres para derrubar essa opressão. Mulher é a nossa consciência de classe política.

Aprendi a não esperar mensagens sua, aprendi a não esperar suas ligações, aprendi a controlar a minha vontade de ligar pra você, aprendi a não te esperar, você partiu tantas vezes que eu já me acostumei e se quer saber, nem dói mais. Não sofro mais com a sua ausência, você me ensinou a viver sem você! Achou que eu não fosse aprender? Pois é, mais eu aprendi.
NS
Não faz isso. Não deposita em mim essa esperança. Eu não quero ter essa responsabilidade. E não adianta você ficar me dizendo que posso fazer melhor, quando sei que já estou dando tudo que posso.
Gabito Nunes